| AS
MÃES DE KOSOVO
Há alguns meses atrás,
as mães de Kosovo eram mães comuns, que se preocupavam
com os seus filhos, maridos, emprego, e talvez com uma
possível guerra que poderia começar qualquer dia.
Talvez hoje, você também
seja uma pessoa comum, que ouve falar do desemprego,
da tragédia, da fome, e se preocupe apenas com o seu
lar, preocupada com a possibilidade de que, um dia,
talvez, alguma coisa possa acontecer com a sua família.
Há alguns meses atrás,
as mães de Kosovo eram mães com esperança de um futuro
para os filhos, e evitavam que eles se misturassem com
certa espécie de gente, para que não fossem marginalizadas
pela sociedade.
Hoje, talvez, você esteja
de tal maneira estabelecido em sua vida, em sua rotina,
que não quer se envolver com nada que possa atrapalhar
a prosperidade evidente, mesmo que em muitos casos a
sua colaboração possa ser essencial.
Há tempos atrás, as mães
de Kosovo tinham nacionalidade, casas, famílias, e eram
ilustres desconhecidas do resto mundo, da mesma maneira
que o desconheciam, e talvez sonhassem com viagens tranqüilas,
férias em família, terras distantes para conhecer e
visitar, gozando de um merecido descanso depois da longa
batalha de criar filhos e suportar maridos.
Quem sabe agora você esteja
se achando digno de uma grande férias, porque ninguém
ao seu lado te entende, toda a sua família poderia ser
diferente, e mesmo Deus não tem tratado você com justiça,
pois com certeza você não merece passar por tudo o que
você está passando.
Pobres mães de Kosovo.
Hoje, sem lar, sem família, muitas vezes sem nem ao
menos o direito de chorar os seus mortos, talvez nem
tenham tempo de se lembrar dos dias idos, ou talvez
tenham saudades até das pequenas discórdias de família,
da bagunça das crianças na casa, do marido chegando
atrasado, das contas para pagar.
Caminhando pelas florestas
ou carregadas em caminhões como animais acuados, talvez
hoje não consigam desejar nada, esperar nada, e com
certeza as dificuldades de hoje as impedem de perceber
o quanto perderam não de bens, mas de tempo: quantos
sorrisos não foram sorridos, quantos perdões não foram
dados, quanto bem não foi abençoado, quanto amor não
foi amado.
Talvez hoje você esteja
olhando essas mães de longe, e, como eu, tem chorado
e rezado por elas, mas sente que não tem nada a fazer.
E por elas, talvez, a única coisa a fazer é chorar e
rezar. Mas perto de você pode ter muitas "mães
de Kosovo".
A guerra que tem matado
mais é a frieza do homem com aqueles que estão próximos,
em dificuldade, e a ignorância do fato que cada um de
nós pode ser o próximo.
Podemos deixar de lado
o nosso ego, e percebermos quantas coisas temos e não
nos saciamos, quanta vitória temos e não nos contentamos,
e quanta paz temos e não abençoamos.
Por que um dia, quando
tudo nos faltar, poderemos estar olhando para trás,
buscando respostas que não encontraremos, amigos que
não conquistamos e um Deus que não conhecemos. Talvez
nunca seja tarde, mas quanto mais tarde, mais dolorido.
E como as mães de Kosovo,
não paremos de sonhar. Em cada caminhão pode chegar
um filho, atrás de cada árvore pode estar o seu marido.
E mesmo quando não chega o seu filho ou marido, distribuem
o seu carinho para aqueles que ainda estão mais desesperados
do que elas. Belas mães de Kosovo.
Sonhemos com ela, e façamos
mais do que fazemos hoje para que nunca falte a ninguém
o braço amigo da solidariedade e o aconchego do amor
desinteressado. |